O Homem Que Imigrou e Ficou em Silêncio
Há um perfil de homem que aparece frequentemente no consultório — ou que deveria aparecer muito mais do que aparece.
É o homem que imigrou. Conseguiu construir tudo do zero num país que não era o seu. Que aprendeu um idioma novo, adaptou-se a regras que nunca lhe explicaram, sustentou a família quando tudo era incerto. Demonstrou ser forte porque não havia alternativa.
E que nunca disse a ninguém o quanto estava a custar.
A saúde mental masculina é um tema que a psicologia leva décadas a tentar trazer para o centro das conversas — com resultados ainda que ainda precisam de muito mais informações. Quando se cruza esse tema com a experiência multicultural da imigração, o silêncio aprofunda-se. E o risco também.

Os números que ninguém quer ver
Os dados são perturbadores.
A taxa de suicídio masculina é de 12,6 por 100 mil homens em comparação com 5,4 por 100 mil mulheres, mais do que o dobro da feminina a nível global segundo a Organização Mundial de Saúde. Entretanto nos países ocidentais, os números são ainda mais expressivos: a taxa de suicídio masculina nos EUA é aproximadamente 4 vezes superior à feminina — 23 por 100.000 homens em 2022, contra 5,9 por 100.000 mulheres.
Em países de alta renda as taxas masculinas sobem para 16,5 por 100 mil habitantes.
No entanto: apenas 1 em cada 4 homens com depressão recebeu aconselhamento ou terapia no ano anterior. Em 2023, apenas 17% dos homens americanos consultaram um profissional de saúde mental, contra 28,5% das mulheres.
A distância entre o sofrimento e a procura de ajuda não é acidente. É construção — cultural, histórica, e especialmente visível em contextos multiculturais onde os homens carregam simultaneamente as expectativas de duas ou mais culturas.
O que a masculinidade tem a ver com o silêncio
Fomos ensinados assim. Desde a infância, a maioria dos homens recebe uma mensagem: ser forte significa não mostrar fraqueza. Chorar é sinal de fragilidade. Pedir ajuda é se render. O sofrimento deve ser escondido para não parecer fraco para os outros.
Em um estudo publicado em 2026 na revista Gender Issues examinou as barreiras à procura de ajuda em saúde mental entre homens australianos e os resultados apresentaram o que vejo em minha prática clínica: os homens tendem a perceber níveis mais elevados de preconceito quando comparados com as mulheres no que diz respeito à procura de ajuda, e são consequentemente menos propensos a procurar ajuda para preocupações de saúde mental.
Estes resultados podem ser atribuídos ao fato de os homens experimentarem um medo elevado do julgamento dos pares por contrariarem noções masculinas tradicionais que desencorajam a vulnerabilidade.
E mais: 44,8% dos homens desistiram dos serviços de saúde mental após a procura de ajuda inicial — ou seja, mesmo quando chegam, muitos não ficam.
Quando a multicultura amplifica o problema
Para a saúde mental masculina de um o homem imigrante, o silêncio tem camadas extra.
O estudo publicado na International Journal of Psychiatry em 2025 que examinou 268 pacientes imigrantes admitidos numa unidade psiquiátrica, o stress de aculturação foi reportado por 51,9% dos pacientes, sendo predominante entre homens (71,9%).
Os homens imigrantes são o grupo mais afetado pelo stress de aculturação — e simultaneamente o grupo que menos procura ajuda.
Por quê? Porque em contexto multicultural, o silêncio masculino é reforçado por múltiplas direções:
A cultura de origem frequentemente define o homem pelo seu papel de provedor e protetor. Admitir dificuldade emocional é ameaçar esse papel.
A cultura do novo país pode valorizar diferentes formas de masculinidade — mas o homem imigrante não tem ainda as ferramentas culturais para navegar essa diferença sem se sentir perdido ou inferior.
O contexto migratório adiciona pressões específicas: a responsabilidade de “dar certo” para justificar o sacrifício da imigração, o medo de decepcionar quem ficou, a necessidade de ser percebido como competente num ambiente que ainda não o reconhece plenamente.
O resultado é um homem que carrega mais do que devia — e que o carrega sozinho.
A fuga que não resolve
Quando o sofrimento não tem saída verbal, encontra outras saídas.
No estudo publicado na Frontiers in Psychology em 2026 sobre fatores associados à depressão e ansiedade em homens confirmou o padrão: muitos homens evitam assistência profissional porque a associam a fraqueza ou feminilidade. Em alternativa, podem recorrer a estratégias de enfrentamento em linha com as normas de masculinidade tradicional, como o uso de álcool, a supressão emocional ou a autossuficiência excessiva, o que pode explicar parcialmente porque a comorbilidade de depressão e ansiedade com perturbações do uso de substâncias é mais comum nos homens do que nas mulheres.
Álcool. Isolamento. Trabalho excessivo. Irritabilidade que se apresenta como stress, mas é, no fundo, depressão não nomeada.
Em contexto multicultural, estas fugas têm uma camada adicional: o homem imigrante pode não ter sequer o espaço social onde habitualmente aliviaria — o grupo de amigos, o desporto, o bar familiar. As redes que anestesiavam o sofrimento também ficaram no país de origem.
O que muda quando o homem entra em terapia
A evidência sobre o que acontece quando os homens chegam à terapia é consistente: normas de gênero masculinas podem atuar como barreiras ao tratamento psicológico em diferentes fases da jornada terapêutica — mas quando ultrapassadas, os resultados são significativos.
Na prática clínica com homens imigrantes em contexto multicultural, o processo terapêutico oferece algo que raramente está disponível em mais lado nenhum: um espaço, seguro, confidencial, sem julgamento e empático onde não é necessário ser forte. Onde o sofrimento pode ter nome. A pressão de duas culturas pode ser examinada.
Ainda não sabe se é a hora certa de pedir ajuda? Reserve 15 minutos — sem compromisso, sem julgamento. Só você, as suas dúvidas e um espaço seguro para perceber o próximo passo.
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Referências científicas
- Anonymous. (2026). Exploring masculinity, perceived public stigma and demographic factors as barriers to help-seeking behaviours in men. Gender Issues. https://doi.org/10.1007/s12147-026-09411-0
- Sharp, P., et al. (2025). The gendered barriers to men’s mental health peer support: A photovoice study. American Journal of Qualitative Research. https://doi.org/10.1177/10497323251367917
- Vandini, S., et al. (2025). Associated factors of depression, anxiety, and suicide behavior among men in Switzerland. Frontiers in Psychology, 2026. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2026.1725181
- Della Rocca, B., et al. (2025). Acculturation stress and mental health outcomes in a sample of migrant inpatients. International Journal of Psychiatry, 71(2), 328–337. https://doi.org/10.1177/00207640241291506
- McKenzie, S. K., et al. (2025). The role of gender norm conformity in men’s psychological help-seeking and treatment engagement. Journal of Mental Health. https://doi.org/10.1080/09638237.2025.2512304

