No texto anterior, Saúde Mental Masculina em Contexto Multicultural, falei sobre o silêncio. Sobre como a saúde mental masculina enfrenta barreiras específicas — e como essas barreiras se tornam ainda mais complexas quando o homem está imerso num contexto multicultural, entre culturas que têm expectativas diferentes sobre o que significa ser homem.
Vamos direto ao ponto!
Quais são os sinais que os homens imigrantes tendem a ignorar? O que diz a ciência sobre o momento certo de pedir ajuda? E o que acontece, na prática, quando finalmente se dá esse passo?
O problema com os sinais
Os homens aprendem a reconhecer o sofrimento físico antes do sofrimento emocional. No consultório eu vejo a dificuldade que a maioria dos homens têm para expressar o sentimento. Uma boa parte de meus pacientes homens adultos, conseguem falar sobre muitos assuntos. Entretanto quando o tema envolve sentimentos, até conseguem falar de alguns, porém dar nome e conseguir se expressar sobre eles é um grande problema.
Porém quando é sobre uma dor no peito vai ao médico. Uma dor interior vai para o trabalho, para o ginásio, para o fundo de uma garrafa.
Em estudo realizado com 117 homens com sintomas de depressão moderada publicado no Journal of Primary Care & Community Health (2020) verificou-se os seguintes resultados 63,2% reportaram ideação suicida ou de autolesão nas duas semanas anteriores — porém somente 8,5% estavam atualmente em acompanhamento profissional de saúde mental. As barreiras atitudinais à procura de ajuda tiveram um efeito preditivo significativamente maior do que as barreiras estruturais.
Isto significa que, quando alguém precisa de apoio (psicológico, médico ou social), os preconceitos e os pensamentos da própria pessoa pesam muito mais na decisão de não pedir ajuda do que as dificuldades práticas ou financeiras.
Ou seja: não é falta de acesso. É falta de permissão interna para pedir ajuda.

Os 7 sinais que os homens imigrantes (ou não) mais ignoram
Tanto no consultório como na investigação acadêmica, o conjunto de sinais que, em homens, raramente se apresentam como “estou mal”. Apresentam-se de outras formas:
1. Irritabilidade constante e desproporcional A raiva é frequentemente a emoção “autorizada” pelos códigos de masculinidade. O que parece mau humor crónico ou explosões fora de contexto pode ser depressão não reconhecida. Em contexto multicultural, a frustração de não ser compreendido, de não ter o estatuto que tinha, de não controlar o ambiente amplifica este sinal.
2. Isolamento progressivo Cancelar ou postergar planos. Responder menos. Preferir estar sozinho sem conseguir explicar porquê. Em homens imigrantes, o isolamento tem uma camada extra: muitas vezes já não há muito com quem estar — e o isolamento passa despercebido porque parece normal dada a circunstância.
3. Trabalho como fuga Trabalhar excessivamente pode ser lido — pela cultura e pelo próprio — como dedicação, responsabilidade, força. Mas quando o trabalho é o único lugar onde o homem consegue existir sem pensar no resto, é sinal de que “o resto” está a ser evitado.
4. Alterações no sono e no apetite sem causa física aparente Insônia. Acordar de madrugada com pensamentos que não param. Comer sem fome ou perder o apetite. O corpo fala quando a mente não tem autorização para o fazer.
5. Consumo aumentado de álcool ou outras substâncias Não necessariamente dependência. Mas o “preciso de uma cerveja para descomprimir” que se torna rotina, que aumenta de frequência, que se torna o único mecanismo de alívio disponível.
6. Sensação persistente de fracasso ou inadequação “Não sou suficientemente bom aqui.” “Não consigo dar à família o que prometia.” “Não estou à altura do que esperavam de mim.” Em contexto multicultural, esta voz é amplificada pela desqualificação profissional, pelo não reconhecimento de diplomas, pelo estatuto social diminuído.
7. Pensamentos intrusivos sobre o passado ou sobre o regresso A ruminação constante sobre o que foi deixado para trás, sobre a vida que poderia ter sido, sobre se a decisão de imigrar foi certa — quando se instala e não passa, é sinal de que algo precisa de atenção.
O que a multicultura específica adiciona ao quadro masculino
Num contexto multicultural, os homens imigrantes enfrentam uma pressão adicional que a investigação começa a documentar com mais precisão.
Uma publicação no Australian Psychologist em 2024 sobre as experiências de homens imigrantes na procura de ajuda em saúde mental identificou um padrão consistente: apesar das altas taxas de doença mental e das barreiras significativas ao acesso à assistência, pouco se sabe sobre as perspetivas dos homens imigrantes relativamente à procura de ajuda formal em saúde mental nos seus novos países.
O que existe é consistente com o que a clínica observa: os homens imigrantes tendem a considerar que pedir ajuda psicológica contradiz tanto a masculinidade da sua cultura de origem como a imagem de “pessoa que conseguiu integrar-se” que querem projetar no novo país.
É um duplo bloqueio. E é real.
O momento certo para pedir ajuda
Há uma pergunta que muitos homens fazem — para si mesmos, em silêncio — antes de marcar uma consulta:
“Será que estou mal o suficiente?”
A resposta que a psicologia oferece é simples: não é necessário estar no fundo para merecer apoio. A terapia não é apenas para crises. É para qualquer momento em que o peso está a ser maior do que consegue gerir com as ferramentas que tem.
E na saúde mental masculina em contexto multicultural, as ferramentas habituais — a família, os amigos, a rede social de sempre — estão frequentemente a muitos quilómetros de distância.
O que acontece quando o homem chega à terapia
A investigação mais recente mostra algo que contraria a ideia de que os homens “não conseguem fazer terapia”:
Em ambientes de suporte adequados, os homens podem redefinir a procura de ajuda dentro do quadro das masculinidades normativas como algo baseado em forças, exigindo atributos como coragem, ação e determinação. Esta reconfiguração posiciona a procura de ajuda como capital masculino — exemplificada pela partilha de vulnerabilidades para afirmar e ajudar outros.
Na prática clínica com homens imigrantes em contexto multicultural, o trabalho terapêutico centra-se em:
Nomear o que não tem nome — dar linguagem ao sofrimento que ficou em silêncio. Frequentemente, o simples ato de nomear o que está a acontecer produz um alívio imediato.
Examinar as expectativas de duas culturas — perceber de onde vêm as pressões, o que é exigência real e o que é construção, e o que o homem realmente quer para si próprio.
Reconstruir a identidade profissional e social — trabalhar a perda de estatuto, a sensação de inadequação, e construir uma narrativa de si mesmo que seja sustentável no novo contexto.
Criar ou restaurar redes de apoio — o isolamento do homem imigrante não é resolvido apenas internamente. A terapia pode ajudar a identificar e construir conexões que reduzam o peso que recai sobre o próprio.
Uma última coisa
Se chegou até aqui — seja você o homem de quem estamos a falar, seja alguém que o conhece — já fez algo importante: reconheceu que o tema existe e que merece atenção.
O próximo passo é mais simples do que parece.
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Referências científicas desta série
- Taha, M., & de Gracia, Ma. R. L. (2026). Exploring Masculinity, Perceived Public Stigma and Demographic Factors as Barriers to Help-Seeking Behaviours in Men. Gender Issues, 43(2). https://doi.org/10.1007/s12147-026-09411-0
- Rice, S. M., et al. (2020). Men’s help-seeking for depression: Attitudinal and structural barriers in symptomatic men. Journal of Primary Care & Community Health, 11. https://doi.org/10.1177/2150132720921686
- Sharp, P., et al. (2025). The gendered barriers to men’s mental health peer support: A photovoice study. American Journal of Qualitative Research. https://doi.org/10.1177/10497323251367917
- Della Rocca, B., et al. (2025). Acculturation stress and mental health outcomes in a sample of migrant inpatients. International Journal of Psychiatry, 71(2), 328–337. https://doi.org/10.1177/00207640241291506
- Abur, W., et al. (2024). African migrant men’s experiences and preferences for formal mental health help-seeking: meta-synthesis and recommendations. Australian Psychologist. https://doi.org/10.1080/00049530.2024.2347639
- McKenzie, S. K., et al. (2025). The role of gender norm conformity in men’s psychological help-seeking and treatment engagement. Journal of Mental Health. https://doi.org/10.1080/09638237.2025.2512304
