Em consultório tem sido comum receber mulheres com um perfil que há durante muito tempo não aparecia. São mulheres que decidiram imigrar com o companheiro e filhos ou ela e os filhos. A característica comum é que não tinham tempo para pensar nelas, pois estavam ocupadas e focadas na gestão de filhos, casa, trabalho, documentos, entre outros.
Ela organizou a mudança, inscreveu os filhos na escola, aprendeu a navegar num sistema de saúde que não conhecia, encontrou forma de pagar as contas enquanto ainda tentava perceber como tudo funcionava. Que mandou mensagens à mãe e aos amigos dizendo que estava tudo bem — porque não havia espaço, nem energia, para explicar que não estava.
Que quando finalmente senta numa cadeira e alguém lhe pergunta como ela está — e só ela, não a família, não os filhos — demora algum tempo para perceber que a pergunta é mesmo para ela.
Esse momento é sempre muito importante no trabalho clínico. Porque revela algo que a investigação científica também procurado estudar: a mulher imigrante é, em média, aquela que mais cuida e menos recebe. E que paga um preço real, e muitas vezes silencioso, por isso.

O que acontece quando a rede de apoio desaparece
Ainda no país de origem, havia uma rede de apoio que dava algum suporte. A mãe que ficava com os filhos numa tarde difícil. A amiga que sabia ouvir sem precisar de explicação. A vizinha que ajudava sem que ninguém pedisse. As referências partilhadas, os rituais do dia a dia, o sentido de pertença que não precisava de ser construído porque já existia.
Quando uma mulher imigra, essa rede de apoio desaparece de um dia para o outro.
Uma publicação de 2023 na Behavioral Sciences analisou programas de apoio para mulheres imigrantes em vários países e confirmou o que o consultório apresenta de realidade: fatores de risco como dificuldades de comunicação, stress constante, ansiedade, discriminação e falta de suporte são amplamente relatados nesta população — sendo que o sentido de pertença e o apoio social percebido são os principais protetores do bem-estar psicológico das mulheres imigrantes.
Na prática, não é preciso ter um diagnóstico, não é preciso estar em crise para sentir o custo de não ter uma rede de apoio. Esse custo acumula-se de forma silenciosa — no cansaço que não passa, na irritabilidade que cresce, na sensação de estar a fazer tudo e ao mesmo tempo não estar a fazer nada suficientemente bem.
A solidão que ninguém nomeia
Há uma forma de solidão muito específica nas mulheres imigrantes que raramente é identificada como tal — porque não parece solidão. Parece vida normal.
É a solidão de estar rodeada de pessoas — os filhos, o parceiro, os colegas de trabalho — e não ter com quem ser simplesmente ela própria. Sem papel, com responsabilidade partilhada e não ter a obrigação de ser forte.
Uma outra publicação, de 2022, que acompanhou mães imigrantes com filhos pequenos registrou este fenômeno com clareza: múltiplos fatores contribuíam para o isolamento social e a solidão das mães imigrantes, incluindo a situação migratória, as circunstâncias socioeconómicas, as barreiras linguísticas e em alguns casos o facto de serem mães sozinhas. As experiências das mães afetavam o seu bem-estar emocional e de saúde mental, enquanto para as crianças, reduzia as suas oportunidades sociais fora de casa.
O que é particularmente importante neste estudo é o que aparece no fim: as crianças são afetadas pela solidão das mães. Não de forma dramática, não de forma visível. Mas as oportunidades sociais dos filhos diminuem quando a mãe está isolada — porque é ela quem cria ou não os pontos de contacto com o mundo exterior.
Também percebo isto no dia a dia do consultório, tanto no privado como no público, em que as mães fazem o pedido de consulta para seus filhos e em uma primeira sessão o que se identifica é que a mãe é que mais precisa de cuidados. A Quando a mãe está bem, aumenta consideravelmente a chance dos filhos ficarem bem.
Os filhos e a escola — o que a mãe carrega sozinha
Uma das questões que mais aparece em consulta com mulheres imigrantes são os assuntos relacionados a escola e o comportamento dos filhos.
Não porque os filhos tenham problemas académicos necessariamente — muitas vezes têm um desempenho excelente. Mas porque a integração escolar de uma criança num país novo é um processo que exige da mãe muito mais do que qualquer brochura de boas-vindas alguma vez explica.
Requer perceber como o sistema funciona — as regras, os rituais, as expectativas dos professores, os códigos sociais entre crianças que a própria mãe ainda está a tentar aprender. Também com a obrigação de estar disponível para as dúvidas dos filhos sobre por que certas coisas são diferentes. Requer acompanhar a adaptação dos filhos enquanto ainda está a fazer a sua própria.
Um relatório da OCDE publicado em 2025 sobre a integração de filhos de imigrantes em países da OCDE concluiu que crianças, com mães nascidas no estrangeiro, têm menos probabilidade de frequentar serviços de educação pré-escolar — com uma diferença de escolarização que é o dobro da diferença observada para crianças de pais nativos em contexto socioeconómico semelhante.
Este dado tem uma leitura clínica importante: muitas vezes não é falta de interesse das mães. É falta de informação, falta de rede que oriente, falta de confiança num sistema que ainda não se deixa perceber. É o isolamento que impede a mãe de saber a quem perguntar — e que acaba por afetar as oportunidades dos filhos mesmo antes de eles chegarem à escola.
e mais…
Outro tema recorrente em consultório, são as diferenças identificadas no comportamento dos filhos. Se ainda não leu, recomento também a leitura do texto O Seu Filho Não Se Afastou de Você — Ele Chegou Primeiro
O que acontece com a saúde mental das mães
Uma meta-análise publicada em 2025 na Clinical Child and Family Psychology Review, que analisou 33 estudos com mais de 214 mil participantes, documentou que os problemas de saúde mental afetam os pais imigrantes a uma taxa de cerca de 25%, com a depressão a liderar com uma taxa de cerca de 24%.
Um em cada quatro pais imigrantes. E as mulheres, como os dados específicos sobre Portugal confirmam, são as mais afetadas.
O que raramente aparece nestas estatísticas é o que fica por baixo dos números: as mulheres que funcionam, que não “entram em colapso”, que continuam a cuidar de tudo — e que por isso nunca chegam a um diagnóstico, nunca pedem ajuda, e não param o suficiente para perceber quanto estão a pagar pelo preço de continuar de pé.
No consultório, estas mulheres chegam muitas vezes enviadas por outra pessoa — pela empresa para prevenir um Burnout, o parceiro que percebeu que algo não estava bem, o médico de família que viu os sinais no cansaço excessivo, ou a escola que entrou em contacto sobre um filho. Chegam para falar dos outros. E ficam — quando há espaço — para falar de si.
O que pode mudar
A investigação é muito clara num ponto que a prática clínica também confirma: o apoio social não é luxo. É protetor. E para as mulheres imigrantes, construir intencionalmente novas redes de apoio — pequenas, imperfeitas, mas reais — é uma das intervenções mais eficazes que existe.
A revisão de intervenções para o bem-estar de mulheres imigrantes concluiu que as abordagens mais eficazes combinam suporte emocional, desenvolvimento de competências práticas e construção de redes de pares — sendo que programas baseados na comunidade que incluem outras mulheres em situação semelhante produzem resultados consistentemente positivos no bem-estar psicológico e no empoderamento.
Não é preciso ter tudo resolvido para começar. Não é preciso estar bem para pedir ajuda. Às vezes, o passo mais importante é nomear o que está a acontecer — com alguém que perceba que o peso não é fraqueza. É contexto.
Uma nota final — para as mães que estão a ler
Se chegou até aqui, é provável que reconheceu algo nestas páginas. Talvez a própria história. Talvez alguém próximo.
O trabalho clínico com mulheres imigrantes não começa pela lista de problemas. Começa pela pergunta simples que muitas nunca ouviram desde que saíram do seu país:
Como é que você está — mesmo?
Se ainda não teve espaço para responder a essa pergunta, este pode ser o momento.
→ Marcar uma consulta — presencial em Lisboa e Carcavelos, ou online de onde estiver.
Referências
Han, Y., Luo, X., Xiong, Y., Peng, X., & Wang, L. (2025). A systematic review and meta-analysis of the mental health of immigrant parents. Clinical Child and Family Psychology Review, 28(4), 805–822. https://doi.org/10.1007/s10567-025-00542-6
Mahajan, M., & Choudhari, N. (2026). Addressing mental health concerns of migrant women using psychological interventions: A scoping review. Journal of Immigrant and Minority Health, 28, 990–1014. https://doi.org/10.1007/s10903-025-01797-5
OECD. (2025). The integration of children of immigrants in OECD countries. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/acec9b49-en
Silva, P., & Pereira, H. (2023). Promoting psychosocial well-being and empowerment of immigrant women: A systematic review of interventions. Behavioral Sciences, 13(7), 579. https://doi.org/10.3390/bs13070579
Tuguinay, N. M., Galpin, J., Bhanbhro, S., & Haith-Cooper, M. (2022). Social isolation, loneliness and health: A descriptive study of the experiences of migrant mothers with young children (0–5 years old) at La Maison Bleue. International Journal of Environmental Research and Public Health, 19(13), 8085. https://doi.org/10.3390/ijerph19138085
